26-05-2011 14h01
Rudiney Leal
A opção pelo jornalismo ocorreu, em grande parte, pela curiosidade que possuo. Uma das coisas que não me furto é a de sempre parar para ouvir uma boa estória. Dentre muitas já ouvidas, gostaria de compartilhar uma bem interessante.
Tudo começa na região do distrito de Palmeiras, município de Dois Irmãos, à beira do Rio Aquidauana, um pescador profissional, desolado pelo baixo nível do rio e a água muito limpa, onde os mais rentáveis peixes de couro não comiam, resolveu armar linhadas pacuzeiras. Usava linha 0,90 mm ou 1 mm (ou 100, como prefere chamar) com pequenos e poderosos anzóis noruegueses (aqueles robustos de hastes curtas).
É fato: pescador profissional não gosta de pescar pacu, a não ser que esteja pegando muito, pois o peso não rende para venda. Neste caso, a exceção ocorreu mais pela necessidade de fazer qualquer dinheiro do que pela piscosidade daquele momento. O cardápio oferecido era de bolinhas de trigo com quirela de milho (àquela época, o missô era quase desconhecido), goiabas vermelhas e genipapos. “Correndo” o rio no remo, a cada linha uma decepção. Nada de pacu.
Já sem esperanças, eis que nosso herói – que prefiro preservá-lo, pois pesca até hoje na região e os maldosos o chamarão de mentiroso – nota a linha esticada e com leve tremor. Com a galhada imóvel, sem arrancadas, ele se aproxima, pega na linha e nota que ali estava um peixe diferente, pesadão, lerdão, que não brigava. Parecia um cachorrinho pardacento e bem educado na coleira.
A semana estava ganha. Era um belo exemplar de jaú com mais de 30 kg. Quantos pacus teriam que ser pegos para dar este peso? Feliz da vida, levou o bicho para seu rancho.
Inexplicável: como um peixe daqueles não brigou e não arrebentou a linha do pacuzeiro? Bem que o galho era flexível, mas algo estava errado. O mistério foi revelado na limpeza do jaú. Insólito. Ele estava engasgado com um grande pacu de pelo menos cinco quilos.
Na estória ouvida e agora repercutida, me foi dito que o pacu se fisgou, brigou bastante e acabou servindo de isca para o jaú. O bicho muito guloso, resolveu engolir um peixe maior que sua garganta e num formato, digamos, indigesto. O engasgamento do jaú impossibilitou-o que tivesse brigado para romper a linha ou o galho.
Não pude disfarçar minha surpresa, até incredulidade, com a estória do Seo João de Tal, mas me deliciei com o causo. Repercuto, pois quem conta um conto aumenta um ponto e, no jornalismo, destas estórias não posso contar.
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