01-02-2012 16h35
Gilson Cavalcanti Ricci
Desde meus tempos de guri que vejo minha cidade jorrar enxurradas a cântaros no mês de janeiro. Naquele tempo, Campo Grande se resumia em menos de dez por cento do que é hoje, ou seja, seu perímetro urbano abrangia um pequeno quadrilátero constituído pelos bairros Amambaí e Cascudo, vilas Carvalho e Glória, e o Centro, que não ia além do obelisco da avenida Afonso Pena.
Havia nesse contorno um bizarro aglomerado de residências modestas, com predominância de casas de madeira ao redor dos quartéis e do aeroporto, no bairro Amambaí, e de casas esparsas nessas mesmas condições nas demais regiões da cidade. Na área central, na Rua Catorze, o comércio começava a dar seus primeiros passos rumo à grandeza atual, destacando-se as lojas dos “turcos” e as quitandas dos japoneses.
Era o alvorecer de uma cidade promissora, que crescia social e economicamente sozinha graças ao arrojo de seu povo, e à benevolência do bom clima e fertilidade do solo – sem qualquer ajuda governamental -. Note-se que tanto o governo estadual, como o federal, sugavam os tributos oriundos das riquezas aqui produzidas, sem nenhum retorno financeiro em benefício da laboriosa população da Cidade Morena.
O fenômeno das chuvas torrenciais de verão, mormente no mês de janeiro, não era diferente do que é hoje. Chovia tanto quanto os dias atuais, e nas mesmas proporções. Todavia, a repercussão dos prejuízos era quase inexistente, pela óbvia inexistência de moradores nas regiões atualmente atingidas pelo dilúvio. Salvo no vale da rua Maracaju, cujos transtornos infernizavam a vida dos moradores, problema que foi solucionado definitivamente - e sem alarde -, com a aplicação de técnica correta na canalização dos córregos naquela área da cidade. Da mesma forma ocorreu com as enchentes da av. Fernando Correia da Costa, que ficou totalmente livre do tormento.
Antes de alardear a violência das enxurradas atuais, e vislumbrar causas irreais – como fazem os ambientalistas desinformados - necessário primeiramente analisar a topografia de Campo Grande, que é constituída de várias saliências do solo semelhantes a colinas, em cujos vales correm um rio (Anhanduí), e mais trinta e três córregos, que circulam por todo o perímetro urbano. Nas partes mais altas dessas colinas, situadas nos pontos extremos da cidade, o declive do terreno facilita a descida das torrentes para os pontos mais baixos, o que é fruto da lógica, provocando enxurradas violentas, que destroem tudo o que encontram pela frente.
O problema, no meu modesto ponto de vista, é de engenharia. A região do Parque das Nações Indígenas, desta feita, foi o calcanhar de aquiles do sistema de drenagem empregado recentemente nas obras de canalização do córrego Soter. Como a tromba d’áqua caída na região fora de grande volume – em torno de 90 mm durante duas horas mais ou menos, segundo os técnicos da meteorologia, a estrutura demonstrou-se inadequada para conter a força da correnteza.
Mister então rigorosa revisão da obra por parte do responsável, pois ficou muito clara a ineficiência do sistema de drenagem ali empregado, segundo disse o prefeito em entrevista dada à TV. O bom exemplo a seguir pode ser extraído da contenção das enchentes nas baixadas da Maracaju e Fernando Correia da Costa – regiões onde as enxurradas arrasavam tudo. Felizmente, com o emprego de técnica adequada, a solução foi encontrada definitivamente, para o bem estar dos moradores daquelas áreas da cidade.
Com certeza, as enxurradas desenfreadas deste mês de janeiro darão motivo aos ambientalistas a ditarem teorias improvisadas acerca do problema, e sem dúvida alguma a pedirem liminares ao Poder Judiciário, como ocorreu no início de janeiro deste ano, quando foram contemplados com uma liminar flagrantemente temerária, que assustou grande parte da população de Campo Grande, diante do impacto socioeconômico negativo que causaria à cidade, não fosse a pronta intervenção do Tribunal de Justiça, ao cassar integralmente o inoportuno ato judicial.
Para se encontrar o motivo principal de todos os transtornos decorrentes dos aguaceiros em nossa cidade, leve-se em consideração a topografia de Campo Grande, que favorece a turbulência das águas durante as precipitações pluviométricas. A solução não seria acabar com as edificações construídas em torno do Parque dos Poderes, ou de quaisquer outras reservas ambientais existentes em nossa bela cidade, como pretendem os ambientalistas.
Justiça se faça ao prefeito, que sempre se preocupou pela solução desses problemas, como agora, quando o vimos na TV visivelmente emocionado. Nosso alcaide falou alto e bom som que houve falha de engenharia, e que vai cobrar a imediata reparação ao responsável pela obra. Conclamo a darmos a ele nosso voto de confiança, a espera da solução que há de livrar nossa amada Campo Grande desses transtornos, de forma idêntica às soluções encontradas nas baixadas das ruas Maracaju e Fernando Correia da Costa.
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